Pesquisa reforça relação entre câncer e alimentação inadequada

Por Giuliana Reginatto

O filé grelhado se disfarça no meio da saladinha, com fama de comida saudável. Ninguém desconfia das boas intenções de um bife feito na chapa, sem gordura aparente. Esse modo de preparo, contudo, provoca a liberação de substâncias cancerígenas pelo alimento. Assar ou cozinhar a carne é o melhor a fazer para proteger o estômago dessas toxinas, assim como ingerir mais fibras ajuda a preservar a saúde do cólon e evitar o álcool reduz a chance de passar por tumores de boca, laringe e faringe.

A conclusão de um estudo pioneiro, divulgado há duas semanas, autentica a receita de saúde que a classe médica vem repetindo há anos, feito um mantra: ‘mantenha uma dieta equilibrada, pratique exercícios físicos’. Medidas populares como essas seriam capazes prevenir 12 tipos de cânceres no Brasil.

Os resultados da pesquisa Política e Ação para a Prevenção do Câncer, promovida pelo Fundo Mundial de Pesquisas sobre o Câncer em parceria com o Instituto Americano para a Pesquisa do Câncer, se baseiam na análise minuciosa de 7 mil estudos sobre a incidência de tumores de mama, esôfago, rim, vesícula, pâncreas, fígado, próstata, endométrio, cólon, pulmão, além da dupla faringe e laringe.

No Brasil, que integrou o levantamento ao lado de China, EUA e Reino Unido, os pesquisadores concluíram que, no geral, 30% dos casos de câncer poderiam ser evitados. Para tumores de boca, faringe e laringe o índice chega a 63%.

Na avaliação do médico Fábio de Oliveira Ferreira, cirurgião oncologista do Hospital AC Camargo – um dos principais centros de estudo sobre o câncer no País – convencer a população a adotar um estilo de vida saudável para prevenir doenças é uma tarefa árdua porque os efeitos advindos com a mudança custam a aparecer. “Se eu alterar meu comportamento hoje, passando a fazer exercícios e a comer corretamente, o reflexo disso em termos de diminuição de risco para o câncer aparecerá dentro de 10 ou 15 anos. É como parar de fumar: leva uns 10 anos para o corpo ficar totalmente desintoxicado”, diz o especialista, que é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo.

Ferreira acredita que as conclusões sobre a possibilidade de prevenir o câncer podem nortear o comportamento das próximas gerações. “A mudança de hábito, embora não traga efeitos tão imediatos para o organismo, se refletirá em nossos filhos. É possível que esse conhecimento possa servir até mesmo para aprimorar a alimentação nas escolas, dando prioridade à ingestão de fibras e diminuindo o consumo de gordura e carne vermelha. Assim, provavelmente seremos capazes de diminuir a incidência de câncer nas próximas gerações”, diz o médico.

A relação entre alimentação equilibrada e prevenção do câncer é tão estreita que o Instituto Nacional do Câncer (Inca) criou um departamento específico para explorar o tema já em 2007, o setor de Alimentação, Nutrição e Câncer. “Está claro para muitas pessoas que o padrão alimentar interfere nas doenças cardiovasculares e na diabete, mas em relação ao câncer isso encontra certa resistência cultural.

De fato, faz parte da prevenção ter que alterar hábitos já consolidados em muita gente, como abusar do álcool e do churrasco “, explica o nutricionista Fábio Gomes, analista de programas para controle do câncer da instituição.

Segundo Gomes, a cervejinha do fim de semana pode ser ainda mais nefasta quando acompanhada pelo cigarro. “O abuso de álcool tem relação direta com tumores de boca, laringe e faringe. Ele torna a mucosa dessa região mais permeável, facilitando a penetração de agentes cancerígenos, como as toxinas do cigarro. Uma dessas toxinas, o alcatrão, também está presente na fumaça do churrasco e acaba impregnando a carne”, esclarece. “Um jeito de minimizar o problema é aumentar a ingestão de hortaliças e frutas, que são alimentos protetores. Sempre é possível acrescentar uma salada ao churrasco. É o teor da alimentação determina se ela será fator de proteção ou de risco para o câncer”, completa.

Até mesmo contra o câncer de mama, considerado um tumor intimamente relacionado à carga genética, há medidas dietéticas eficazes. Segundo o recente estudo, quase um terço deles poderia ser evitado no Brasil. “O consumo alto de gordura e a quantidade elevada de gordura corporal alteram o metabolismo da mulher e sua produção hormonal. Assim, fazer a manutenção do peso é uma medida de prevenção fundamental”, analisa Gomes.

Ele destaca que amamentar por pelo menos seis meses é outro fator de proteção. “Fazendo isso a chance de ter câncer de mama diminui de 10% a 20%.” Segundo o especialista do Inca, alguns alimentos, além de gordurosos, contém outras substâncias que podem estimular os quadros de câncer. “Nos embutidos, por exemplo, há conservantes à base de nitritos e nitratos, que em contato com o suco digestivo se transformam em compostos reconhecidos como cancerígenos pela Organização Mundial de Saúde. Até mesmo as versões light ou diet desses produtos, apesar de apresentarem teor reduzido de sódio ou gorduras, contêm os mesmos conservantes”, alerta o nutricionista.

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